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quarta-feira, 10 de julho de 2013

Divagações sobre o que é ser crafter e por que consumir crafts

Divagações sobre o que é ser crafter e por que consumir crafts
por Andrea
Vulcan: embalagem

Por Emy Kuramoto, blogueira convidada do Mês.
Vocês que circulam por aqui já devem ter sacado que o ato de fazer artesanato, crafts ou trabalhos manuais (a terminologia mais adequada costuma gerar muita discussão) sofreu uma reviravolta com a internet. O que antes era atividade de vovós ou passatempo de donas-de-casa, pelo menos no imaginário comum, está sendo levado mais a sério como negócio. Fato interessante é que muitas pessoas jovens e bem instruídas, com ensino superior, diplomas e especializações variados, estão se dedicando a fazer trabalhos artesanais e isso parece ser um fenômeno mundial. Juventude e formação acadêmica não garantem necessariamente qualidade, mas certamente introduzem uma nova cara às técnicas tradicionais, que estão, aos poucos, é verdade, deixando de ser vistos como um sub-emprego malfadado para se tornar uma atividade rentável.
Esse novo perfil de artesão foi se consolidando com o surgimento de sites, fóruns, blogs e comunidades online relacionadas ao tema. Muitos aproveitaram a experiência que já tinham em casa, graças às mães, avós e/ou tias prendadas, para se dedicar a algum trabalho artesanal e divulgá-lo pela rede. Outros se utilizaram da própria web e de seus zilhões de tutoriais para aprender sozinhos a dar os primeiros passos, esmiuçar alguma técnica e vender seus produtos. Não sei dizer se há um caminho melhor, mas acredito que o valor individual, a bagagem, o bom gosto e a determinação são mais importantes do que o modo como você dominou algum processo.
O bacana disso tudo é perceber como o trabalho artesanal difundido pela internet provocou uma mudança efetiva na vida das pessoas. Um bom exemplo é o de mães que tiveram que abandonar seus empregos para criar os filhos e encontraram independência e valorização numa atividade manual sem abrir mão do tempo com as crianças. Ok, antes que as mais feministas me lancem um vudu, não acho que se dedicar aos crafts seja um retrocesso, seja coisa de mulher desocupada, de mães desempregadas que aceitaram o trabalho manual como um consolo, como um ato último de resignação, pelo contrário, percebo que muitas encontraram no meio de agulhas, linhas, papéis e tintas uma sensação libertária e prazerosa e que isso as fez desfrutar de mais qualidade de vida, essa coisa tão reivindicada quanto escassa hoje em dia. Digo isso porque ainda há muito ceticismo quando você se anuncia como artesão ou crafter. Há os que pensam que você está achincalhando as conquistas das mulheres no mercado de trabalho e que com a sua formação, você deveria estar vestindo um tailleur preto, subindo o elevador de um prédio bem bacana para uma reunião com a diretoria de uma multinacional. Outros simplesmente acham que você só pode estar brincando, delirando de fome, ou então, pronto, virou hippie!
Bem, esse estado de descrença que paira sobre as cabeças de quem trabalha com crafts denota bem a confusão sobre o papel, principalmente da mulher, nos dias de hoje. O trabalho manual, feito em casa, que muita gente ainda vê como um recuo nas demandas feministas, está sendo abraçado por mulheres jovens, que dão uma cara divertida, moderna e diferente ao velho crochê e tricô, por exemplo, sem que isso seja encarado como uma atividade menor, simplória, de “mulherzinha”.
O legal em reler uma técnica antiga é que o consumidor passa a ver o produto sob outras perspectivas. Aquela toalhinha bordada que ficava em cima da cômoda da sua avó agora tem cores e formas bem mais atuais, saem as tradicionais flores e entram corujas e caveiras, por exemplo (e eu gostaria de saber por que essas imagens são tão recorrentes no Etsy…). Uma rápida vasculhada em sites e lojas especializados em vender esse tipo de produto permite perceber que não há similares nas grandes lojas e nos shoppings. Então uma conclusão banal, mas importante, é que a vitalidade do produto artesanal reside justamente em conseguir se situar fora do mainstream, principalmente da produção massiva globalizante, de ritmo chinês, que fez as coisas ficarem mais baratas e mais iguais, algumas com qualidade bem duvidosa. E é justamente esse traço outsider que fez com que emergissem na rede alguns ditos “movimentos craft” ou até “manifestos craft”, tentando politizar essa nova onda de artesãos, dando a ela um quê de resistência e protesto. Nessa lógica, os crafters se situariam no mesmo terreno das bandas ou dos videomakers independentes. Vejo que os norte-americanos, particularmente, gostam muito dessa visão. No site I buy handmade, há vários links para blogs e sites que tratam de consumo consciente e criticam as grandes corporações. Yes, eu concordo que trabalhar com crafts é, até certo ponto, social e ecologicamente correto, afinal rios não são poluídos, a produção não é alienante e um batalhão de pessoas não é subempregado num chão de fábrica apinhado de máquinas, mas não me sinto nada confortável com esse viés socialista que se tenta promover por lá. Acho exagerado, afinal, de um jeito ou de outro, dependemos das grandes corporações (eu gosto de comprar bons materias, máquinas e utensílios para o meu trabalho!), precisamos de dinheiro, precisamos viver com dignidade e isso é bacana para a economia.
Bom, em vez de ver a coisa apenas por este ângulo social e “consciente”, prefiro pensar que o trabalho artesanal deve ser consumido e valorizado pelo que é em si. Explico: há muitos crafters suprindo nichos que as grandes lojas não atendem, ou seja, entendendo seu cliente e o que ele quer. Se você está prestes a fazer sua viagem dos sonhos e procura um diário de viagens à altura, provavelmente não vai encontrá-lo na papelaria da esquina, mas pode achar um caderno perfeito, feito com papéis especiais, com estampas diferentes e lombada artesanal no ateliê de um crafter ou então, se você quer sair da mesmice e procura aquele vestido com uma gola super bacana e botões vintage garimpados com carinho, vai ver que ele não é vendido nos shopping centers, que geralmente tentam nos enfiar goela abaixo a moda das revistas… E, mais importante: o consumo de objetos craft geralmente implica numa relação direta, pessoal e respeitosa entre artesão e consumidor. Alguns produtos são feitos sob medida, ou seja, há uma pessoa ou uma equipe dispensando seu tempo para atender exclusivamente um cliente. Num mundo cada vez mais impessoal, onde se compra a rodo e a toda hora, acho que consumir crafts aumenta e diversifica as opções de compra, afaga os olhos e faz bem para a alma!
E vocês, o que acham?
 

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